Nubank vs Mercado Livre: o que está por trás do duelo dos gigantes

Disputa ganha novos contornos à medida que ambos expandem seus ecossistemas digitais e avançam sobre pagamentos, marketplace e a jornada completa de compra

Por mais de uma década, Nubank e Mercado Livre cresceram em trilhas distintas do ecossistema digital latino-americano. O primeiro nasceu em 2013 com a proposta de transformar os serviços financeiros, derrubando a burocracia bancária e centrando tudo na experiência mobile simplificada. O segundo, fundado em 1999, se consolidou como o maior marketplace da região, com um dos sistemas de logística e compras online mais eficientes do país. Duas histórias de sucesso paralelas… até agora.

Nos últimos meses, uma série de movimentos estratégicos aproximou os dois gigantes na mesma arena: a disputa pela jornada completa do consumidor. Com mais de 127 milhões de clientes, o Nubank vem ampliando sua atuação no varejo online. Firmou parcerias com Amazon e Shopee, ampliou o alcance do NuPay (seu meio de pagamento próprio) e acelerou o marketplace Shopping Nu. O Mercado Livre, por sua vez, intensificou a estratégia financeira via Mercado Pago, ampliou sua oferta de crédito, investimentos e serviços bancários, e fortaleceu sua presença como banco digital para o brasileiro comprar, vender e gerenciar seu dinheiro.

O resultado é uma convergência inédita na região. O roxinho, que nasceu fintech, avança sobre o território do e-commerce. O marketplace, que sempre foi varejo digital, mergulha na estratégia de player financeiro. Cada movimento pressiona o outro – e, pela primeira vez, Nubank e Mercado Livre começam a se encontrar (e competir) pela mesma peça: liderar a experiência de compra, o momento do pagamento e a relação financeira com o consumidor.

A disputa se intensificou em 2024. Em um evento da Bloomberg, do qual o Startups marcou presença, David Vélez, CEO do Nubank, afirmou que o Shopping Nu já era “o maior marketplace do Brasil”. A empresa, porém, não divulga números específicos e, nos resultados do primeiro trimestre de 2025, indicou ter uma participação discreta de menos de 1% do pool de lucro bruto do setor.

A provocação de Vélez não passou batida. Em novembro de 2025, Marcos Galperin, fundador e CEO do Mercado Livre foi questionado sobre a concorrência com o Nubank, e devolveu com ironia: “O que é Nubank? Eu não sei”.

Ariel Szarfsztejn, seu sucessor a partir de 2026, foi mais direto: “Vamos ser os prestadores de serviços financeiros mais relevantes da América Latina, e estamos convictos disso”, afirmou.

Procurado pela reportagem, o Nubank decidiu não se posicionar sobre o tema. O Mercado Livre informou que enviaria um posicionamento, mas não respondeu até o fechamento desta matéria.

1. Ecossistemas diferentes, objetivos semelhantes

“O que muitos estão chamando de disputa, enxergo como uma tendência normal”, afirma Roberto Kanter, professor dos MBAs da FGV na cadeira de Modelos de Negócios Digitais e sócio da Canal Vertical. “Ambos estão construindo ecossistemas de negócios.”

Kanter explica que, em um ecossistema completo, o cliente – pessoa física ou jurídica – encontra tudo no mesmo ambiente: transação, conteúdo, navegação, compras, logística, pagamento, crédito e serviços. Quanto mais usuários, maior o tráfego; quanto maior o tráfego, mais marcas entram; e quanto mais marcas entram, menor o custo de aquisição, maior a lucratividade e mais consistente o ciclo de crescimento.

Nesse sentido, Nubank e Mercado Livre não são tão diferentes, embora cada um tenha começado por um lado distinto do ecossistema. Segundo ele, o Mercado Livre opera um ecossistema vertical, no qual todas as empresas são parte da mesma estrutura e conversam entre si. “O cliente da vertical A (marketplace) é também cliente da B (banco digital), C (logística) e assim por diante. Em vez de ser uma holding tradicional, onde os negócios não interagem, no Mercado Livre todos estão integrados”, observa.

Já o Nubank opera um modelo espiral, baseado em parcerias. “O Nubank pensou: ‘Eu não preciso ser dono de tudo’. Ele está no meio. Oferece serviços financeiros, e os parceiros ao redor entregam produtos e serviços complementares, enquanto utilizam as soluções financeiras.”

Kanter reconhece que há um pequeno componente vertical no Nubank, já que algumas empresas são proprietárias da própria companhia, como no caso do NuCel ou do Shopping Nu. Ainda assim, a lógica é outra: “Quem opera o marketplace do Nubank não é ele mesmo, são terceiros. Já no Mercado Livre, o marketplace é operado pelo próprio Mercado Livre”, pontua.

O professor da FGV ressalta que não existe modelo certo ou errado: cada empresa aposta no que faz sentido para sua cultura e visão de mercado. No caso de Nubank e Mercado Livre, apesar das diferenças estruturais, o objetivo é o mesmo: construir um ambiente único, conectado por meio da tecnologia, capaz de atrair, engajar e reter usuários ao longo de toda a jornada digital.

2. Facilidade vs Compra

A análise de Kanter encontra novas dimensões na leitura de Samuel Barros, professor de Finanças e reitor do Ibmec-RJ. Para ele, embora os dois queiram desenvolver super plataformas, seguem estratégias completamente diferentes.

“O foco do Nubank é a experiência do usuário – ser muito fácil de usar. Já o Mercado Pago, como banco digital do Mercado Livre, deixa o consumidor mais integrado àquele ambiente: aumenta o limite de crédito, oferece mais seguros e facilita o processo de compra. Em resumo: um busca maximizar a experiência do usuário; o outro, simplificar o processo de compra.”

Dados divulgados em agosto pelo Mercado Livre indicam que o número de compradores únicos no marketplace chegou a 70,8 milhões. No mesmo período, o Mercado Pago registrou quase 68 milhões de usuários ativos mensais, alta de 30% em relação ao ano anterior. 

Os números ajudam a ilustrar o argumento do especialista: a base do Mercado Pago praticamente espelha a de compradores do Mercado Livre. Isso reforça a sinergia entre as duas frentes do ecossistema, ainda que a fintech atraia um número crescente de usuários fora do marketplace. No conjunto, os dados mostram como a sinergia entre compra, pagamento e crédito se tornou um dos pilares estratégicos do grupo.

Segundo Barros, isso se reflete no “usuário clássico” de cada plataforma. No Nubank, o público inicial era formado principalmente por jovens – em geral não empreendedores – que buscavam um cartão simples, sem burocracia e fácil de usar. No Mercado Pago, a base nasceu entre os vendedores do marketplace, que passaram a usar a conta vinculada ao negócio e depois também na pessoa física. Mais tarde, juntaram-se a eles compradores atraídos pela possibilidade de parcelamentos mais longos.

3. A nova fronteira da disputa

Edson Santos, fundador da Colink Business Consulting e especialista em meios de pagamento, defende que a economia digital vive uma transição profunda. Pagamentos, compras e crédito estão deixando de ser etapas separadas, passando a se integrar de forma natural à jornada do consumidor. A decisão de comprar e o ato de pagar agora acontecem no mesmo fluxo e, com isso, o valor deixa de estar no meio de pagamento em si e migra para o ambiente onde essa decisão ocorre: o ecossistema.

Segundo ele, estamos entrando na era do pagamento invisível. Nesse cenário, Nubank e Mercado Pago convergem no mesmo fenômeno: o pagamento deixa de ser um ato isolado e passa a ser parte da experiência. Quanto mais fluido o processo, mais valor é capturado pelo dono do ecossistema.

“Quem controla o momento do pagamento acaba controladno muito mais do que transações. Controla dados, recorrência, risco, crédito, fidelidade e, sobretudo, a percepção de tempo. E, em uma economia acelerada, o tempo virou a moeda mais valiosa”, destaca.

No fim, ambos perseguem o mesmo objetivo: ser o “cérebro” financeiro por trás do comércio digital. “O futuro pertence a quem tornar o pagamento tão natural que o consumidor nem perceba onde, exatamente, ele aconteceu”, conclui.

4. Tem espaço para os dois?

O cenário latino-americano lembra, em escala menor, a guerra de ecossistemas vista na China entre Alibaba e Tencent. Lá, empresas combinaram pagamentos, e-commerce, crédito, logística e serviços diversos, criando um efeito de rede concentrado que dificulta a migração de usuários para outros players.

Na América Latina, Nubank e Mercado Livre seguem uma lógica semelhante: não disputam transações isoladas, mas o controle da experiência digital do consumidor. A lição chinesa mostra que quem domina o ecossistema garante não só volume de transações, mas também dados, engajamento e fidelidade do usuário, e é exatamente isso que está em jogo.

Para Samuel Barros, do Ibmec-RJ, a resposta é sim: há espaço para os dois gigantes latinos. “O mercado em comum entre eles é o Brasil. Fora isso, o Mercado Livre é forte na Argentina e no Chile, enquanto o Nubank se destaca no México e na Colômbia. Por mais que o objetivo seja ganhar dinheiro e crescer, cada um segue uma estratégia diferente. Então, há espaço para os dois sobreviverem”, analisa.

Ele compara o cenário à coexistência de outros grandes players no país. “Se Amazon e Magalu conseguem atuar lado a lado, assim como Bradesco e Santander, também há espaço para Nubank e Mercado Livre”, diz. Para Barros, a preferência do usuário será sempre determinante. “Tem gente que nunca vai se entender com o Nubank, e outros que não vão gostar do Mercado Pago. Cada usuário tem sua própria preferência, então existe mercado para todo mundo.”

Roberto Kanter, da FGV, acrescenta que não só há espaço para eles coexistirem como, eventualmente, até se conectarem. “Nada impede que no futuro uma das empresas do Mercado Livre se conecte com um dos parceiros do Nubank – ou vice-versa – e, eventualmente, tudo fique conectado”, afirma.

Para Kanter, a expansão desses ecossistemas é um caminho sem volta. “Quem não fizer parte disso fica para trás, a não ser que encontre um nicho muito específico. Se a ambição é ser um banco de varejo, um banco comercial ou um banco amplo, não tem saída: se você não se conectar, acabou. É uma tendência absoluta.” (Fonte: startup.com.br / autora: Gabriela Del Carmen)

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